Pessoas e Gestão estratégica

Por Alberto Vieira da Silva

Há  poucos dias atrás, ouvi no rádio um spot publicitário de um curso de pós-graduação em Gestão Estratégica de Recursos Humanos, anunciado por uma universidade da região. Bem sei que, nas instituições de ensino superior, os cursos são desenhados por professores e pesquisadores experientes, portadores do devido grau acadêmico; mas também sei que, sobretudo nas universidades privadas, existem tentações comerciais que, por vezes, se sobrepõem aos conceitos mais ortodoxos das respectivas áreas de conhecimento. E para ser franco, já vi, li ou ouvi nomes de cursos que são verdadeiros Frankensteins acadêmicos…

Mas a questão fundamental que pretendo trazer hoje é que, em minha concepção, não existe gestão estratégica de pessoas mas, simplesmente, gestão estratégica. Desse ponto de vista, o curso publicitado seria gestão estratégica e recursos humanos; não … de recursos humanos. No caso, os RH seriam tratados como um elemento pertencente a um conjunto indivisível, justamente, a gestão estratégica. A diferença é muito sutil, mas é importante para que o conceito fique bem entendido e, daí ser colocado na prática.

Na realidade, Pessoas é talvez o mais importante elemento ou fator-chave da gestão estratégica; mas não é o único. E é aí mesmo que reside o segredo do conceito de gestão estratégica: a visão e o tratamento total, global, inteiro, simultâneo, de todos os fatores presentes na organização. Isso significa que, se tomado isoladamente, esse ou qualquer outro elemento (financeiro, tecnológico, inovação, etc.) perderá o viés estratégico, integrador e articulador (sistêmico), para entrar no viés redutor e disjuntor (fragmentado). O pior erro na prática da gestão é tomar a parte pelo todo. Saltou fora da carruagem, perdeu o trem inteiro…

O mesmo acontece quando qualquer objetivo ou projeto estratégico é preparado e agendado tornar-se operacional e poder gerar mudança ou resultados: toda a equipe tem que estar ciente da importância estratégica do que vai ser operacionalizado, para cada um interpretar com precisão o que vai ter que fazer. Não adianta que o pensamento estratégico e o planejamento estratégico fiquem isolados no seleto clube da alta administração: todos os envolvidos, dos decisores aos executores, têm que entender os porquês e os para ques, para que possam ser criativos e eficazes em suas tarefas e resolver problemas sem, a todo o momento, terem que questionar suas hierarquias.

Assim, numa organização saudável, o pensamento estratégico deve estar no DNA da organização. E onde está esse DNA? Não em algum lugar misterioso e inacessível, mas dentro de cada ator institucional. Embora, em primeiríssimo lugar, como é óbvio, nos decisores e demais gestores, que o retiram da missão e valores da instituição.

As organizações são feitas apenas por pessoas: tudo o mais é recurso material, inerte; com valor (que é atribuído também por pessoas), mas sem vida própria. O único elemento pró-ativo e regenerativo é o elemento humano. Com efeito, apenas pessoas são capazes de analisar, pensar, ponderar e mudar uma dada realidade, melhorando o que já existia, por dentro e por fora da organização. Sim, porque estratégia não é apenas um movimento para fora, para enfrentar competidores: ela implica sempre mudança e melhoramento para se fortalecer internamente. Assim fala a velha mas sempre útil e atual receita do modelo SWOT.

– Este artigo utilizou elementos de Revisitando: Estratégia e Pessoas, disponível em O estado da ARS (30-07-2009)

Créditos da imagem: The Voca People  http://www.vocapeople.com.br/

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Comentários

  • Alberto  On 23/09/2010 at 23:12

    Fiz este comentário hoje no FaceBook, a partir de um link postado pelo Potal Administradores [http://administradores.com.br/informe-se/administracao-e-negocios/entenda-mais-sobre-gestao-estrategica-de-pessoas/38240/]:
    – “Não acredito na gestão estratégica de pessoas. Acredito, sim, em gestão estratégica, que, naturalmente, passa por pessoas logo em primeiro lugar, e por todas as vertentes ligadas ao elemento humano, começando pela capacidade de liderança, pela motivação, criatividade, etc. A gestão estratégica é transversal, perpassa todos os aspectos da vida da empresa ou da organização e não deve ser reduzida a uma de suas partes em separado. Quanto a mim, limitar a gestão estratégica a pessoas, a tecnologia, a finanças, ou a qualquer outro aspecto particular, é limitar o conceito, retirar-lhe todo o seu conteúdo sistêmico e, portanto, a capacidade de gerar resultados quando colocado na pratica. Recentemente, elaborei uma pequena discussão sobre o tema em https://oestadodarte.wordpress.com/2010/08/25/pessoas-e-gestao-estrategica/. “

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  • […] existe gestão estratégica da liderança, nem de pessoas (ver meu artigo de 25 de Agosto último, Pessoas e gestão estratégica) – o que existe é gestão estratégica, como uma função sistêmica, global e transversal a […]

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