Administração ou Gestão?

Por Alberto Vieira da Silva

O que será mais correto falar ou escrever: “Gestão” ou “Administração”? quais são os conceitos? no que eles diferem um do outro? A propósito de uma sugestão que fiz em 22 de Agosto passado sobre o blog de Gary Hamel no Wall Street Journal, coloquei o assunto como comentário: uma discussão que me parece importante, nos dias de hoje, no contexto brasileiro. Com efeito, no Brasil, a nomenclatura clássica, tradicional, inclusive no MEC, é “Administração”; ao passo que em Portugal e nos restantes países lusófonos, esse problema não se coloca, porque sempre se fala em “Gestão”, ficando o termo “Administração” confinado à administração pública ou como adjetivo de situa’~oes ou tarefas de cunho burocrático ou processual. Então, surge a questão perante a tradução de Management 2.0: porque não utilizar “Administração 2.0” em vez de “Gestão 2.0”? Aparentemente, não existe impedimento, quer para uma, quer para a outra. Porém, existem diferenças…

No Brasil, o termo “Administração” como identificador de ciência, prática e condução de negócios,  foi cunhado ainda no tempo em que, mesmo nos EUA, não se utilizava ainda a palavra Management em termos de titulação e currículo acadêmico. Assim se iniciou e se consolidou a tradição desse termo no país. Conforme o próprio Conselho Federal de Administração, as primeiras escolas de Administração no Brasil sugiram pela mão da Fundação Getúlio Vargas (FGV): a Escola Brasileira de Administração Pública (EBAP), em 1952, e a Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), em 1954. Essas iniciativas foram precedidas por uma viagem de representantes da FGV aos EUA, em 1948, onde visitaram vinte e cinco universidades que mantinham cursos de Administração Pública.

Com efeito, nos Estados Unidos, nessa época, falava-se em “Business Administration” (administração de negócios) e “Public Administration” (administração pública), mas muito pouco em Management, que estava apenas emergindo dentro do meio acadêmico, sobretudo pelas mãos de Peter Drucker como professor da Universidade de Nova York (1950-1971) e seus célebres (hoje) clássicos e (então) inovadores: “The Concept of Corporation” (1946) e “The Practice of Management” (1954).

Sendo o conceito de Administração – como prática política – muito mais antigo do que a vertente comercial dela, é natural que, por isso mesmo, esteja conotado com as abordagens e as práticas mais antigas dessa área do conhecimento. E assim acontece frequentemente no Brasil: ainda se confunde administração com burocracia, organização mecânica do trabalho, contabilidade e pessoas tratadas como combustível ou mercadoria. Porém, uma empresa pode ter um excelente desempenho administrativo, mas… pode ter uma má gestão: onde está a diferença, então? No português europeu, em francês e inglês, existem sentidos claramente diferentes para as duas palavras, e distingue-se Administração (Administration) de Gestão (Gestion -fr- e Management -eng-).

Assim, a Administração clássica tem como eixos principais organização do trabalho, fluxos operacionais e finanças, devido a sua longa história pública e de estado; ao passo que a Gestão (que em minha opinião estaria mais perto do conceito de Management) tem a ver com tudo o que se passa numa organização, mas sempre num viés de mercado e, sobretudo, estratégico, que é dinâmico, inovador e integrador de pessoas e recursos… algo com que a Administração clássica não se preocupava mesmo nada…

Os grandes impérios do passado já tinham Administração, e bastante complexa… mas não tinham Gestão. Por que? Porque “Administração” tem um cunho essencialmente organizador e operacional e, no tempo dos impérios, a única estratégia com escola que existia era a militar. Também existia outra estratégia: a geopolítica, mas estava nas mãos de uma elite governante, no imperador e seus assessores, nas famílias reais, nos nobres que eram chamados para semelhantes funções, etc. Mas nessa época, ou seja, até antes da primeira Revolução Industrial, não existia uma sociedade de empresas e organizações, como é a realidade dos nossos dias, especialmente desde o alvor do século vinte. Por isso é que, quando a Universidade de Harvard criou o primeiro MBA (Master in Business Administration), em 1921, teve necessidade de distingui-lo de “Administration” e de “Public Administration”. Justamente, porque “Business” (negócios) implica um outro posicionamento, onde não se aplicam muitas premissas da Administração clássica.

O assunto é polêmico, mas continua aberto para discussão. Por mim, prefiro que, em 2010, todas as organizações tenham mais Gestão (na visão contemporânea) do que simplesmente… Administração clássica, mecanicista, sonolenta e burocrática.

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