Gestão estratégica da liderança?!

Escrevi hoje um comentário em um artigo de 2008 no portal Administradores, chamado Cinco passos para realizar uma gestão estratégica de liderança. O artigo está interessante, tanto quanto o tema “Liderança” possa ter interesse. Embora ele esteja já tão saturado e exaurido no panorama nacional, que fica raro encontrar uma matéria verdadeiramente inovadora e com qualidade. Salvo exceções a honrar devidamente, o que se encontra mais frequentemente na oferta de serviços dentro dessa temática é um caldo de cultura de gente, com currículo e formação desconhecidos, ofertando tudo o que se pode imaginar sobre liderança, não se sabendo à priori onde, em tanta quantidade e imaginação, se encontrará algo que funcione. Repito: honra-se, naturalmente, a oferta profissional com verdadeira proficiência na área.

Na realidade, existe o péssimo hábito – inclusive em artigos acadêmicos, o que é mais grave – a que poderíamos chamar de “copiar-o-que-outro-já-copiou-de-algo-copiado”; ou ainda esse outro hábito – menos grave, mas que só enche linguiça e não traz nada de novo – ao qual chamaríamos de “citar-a-citação-que-o-outro-já-citou-de-alguém-já-citado”. Então, tanto em artigos como em oferta de consultoria em liderança, é comum encontrar-se panóplias de conceitos e práticas copiados de outros (sem lhes dar qualquer crédito) e colados sob múltiplas formas, por vezes absolutamente patéticas. Em resumo: falta de rigor conceitual e falta de ética profissional – se é que as pessoas que copiam tudo o que outros escrevem, e o fazem sem dar crédito algum, se podem chamar de profissionais.

Esses dois hábitos, juntos ou em separado, criam a sensação de que alguém pode chamar de “artigo” a uma colagem de trechos e ideias de várias pessoas e não ser notado. Pior ainda, se for um artigo acadêmico, porque neste a exigência seria maior: o uso e abuso de citações de outros autores (sempre os mesmos), a inexistência de pesquisa de novos autores e de artigos ou obras recentes com qualidade, tudo isso somado à ausência de ideias próprias cria um panorama de seguidismo, intelectualmente pobre e, por isso, muito pouco estimulante.

No que diz respeito ao artigo em epígrafe, postei hoje o seguinte comentário:

“Em minha opinião, o título do artigo não tem muito rigor conceitual. “Gestão estratégica da liderança” é algo assim como “Chover no chão molhado pela água da chuva”. Ou seja, a capacidade de liderança é que vai determinar a qualidade da gestão e, se é de gestão estratégica que estamos falando, mais ainda, visto que se trata de uma função de alta administração. Liderança é, portanto, uma competência essencial da gestão. Não se faz gestão da liderança: é esta que faz, ou não a boa gestão de topo.”

Infelizmente, o espaço para comentários aos artigos do conceituado portal é apenas esse. O que poderíamos comentar ainda? Por exemplo, que liderança, ao contrário do que popularmente é propagado (“As lideranças do partido PXY”, “As lideranças da região”, etc.) não é um cargo ou uma função, mas uma capacidade humana, individual, inata ou desenvolvida, para conduzir pessoas e tomar decisões: gerir, gerenciar ou administrar grupos humanos, formalizados ou não em organizações. Já no contexto de uma organização, a liderança é, sem dúvida, uma das competências essenciais – senão a mais importante. Por esse motivo, a boa ou má gestão não é função apenas de competências técnicas e administrativas, mas dessa habilidade para conduzir e motivar pessoas, de acordo com os talentos de cada um, para objetivos comuns – no caso, da organização onde elas se encontram. Ora, essa é uma das premissas da gestão estratégica.

Por esse motivo, eu tenho como certo que não existe “Gestão estratégica da liderança”, nem de pessoas (ver meu artigo de 25 de Agosto último, Pessoas e gestão estratégica), nem de outro aspecto particular da vida da organização: o que existe é apenas gestão estratégica, como uma função sistêmica, global e transversal a toda a organização. E o que é necessário em primeiro lugar para existir gestão estratégica, e gestão global da organização em primeiro lugar? Liderança. A liderança é algo como a alma ou o motor motivador de uma organização, capaz de conduzi-la ao sucesso ou de deixá-la se afundar no fracasso; ou no contentamento da rotina, o que também vai dar no fracasso.

Uma empresa pode ter meios e ativos econômicos e financeiros e, até, um excelente time técnico, mas sem gestores com capacidade de liderança, não existe ânimo, motivação, energia para atingir objetivos e obter resultados. Portanto, o que existe é liderança na gestão e, dentro desta, para a gestão estratégica, como a primeira e última função de gestão; e não gestão estratégica da liderança. Aliás, se tomarmos todos os exemplos da História, os grandes estrategistas foram grandes líderes em primeiro lugar. A liderança, a capacidade de conduzir pessoas e de tomar decisões é que faz a estratégia, e os direcionamentos estratégicos, por sua vez, determinam os restantes aspectos da gestão.

Eis porque denunciei, embora de uma forma crítica, construtiva e benigna, aquilo que achei uma falta de rigor no título do artigo em apreço.

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Comentários

  • Alberto  On 08/05/2012 at 12:07

    Auto-conhecimento é um tema hoje muito popular nos ambientes que orbitam a vasta área da Administração. O elemento humano é, sem dúvida, o mais importante em todos os grupos humanos. Na Gestão, também. Seres humanos mais aprimorados tendem a ser líderes mais esclarecidos, mas nem sempre isso acontece, porque nem sempre o líder está no lugar certo; e, também, porque o que faz uma equipe de sucesso não é apenas um bom líder, mas uma boa equipe. A interação e a distribuição das complementaridades dentro da equipe são fatores importantes, entre outros. Assim, acredito que uma equipe harmônica, com conhecimento do que está fazendo e foco nos objetivos só pode dar bons resultados.

Trackbacks

  • […] Como poderá uma organização atingir seus objetivos estratégicos com sérias deficiências de liderança? E porque é importante entender a diferença entre poder e liderança? A primeira questão, que faz pensar na operacionalização ou execução da estratégia, já foi tratada parcialmente neste blog, nos artigos Inovação e execucao: Vijay-Govindarajan e Organizações complexas exigem simplicidade. A segunda questão, no que diz respeito à atemática da Gestão Estratégica e Gestão de Pessoas, foi recentemente desenvolvida em Gestão estratégica da liderança?.   […]

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