– Do you speak Globish? – Língua e comunicação no mundo profissional contemporâneo

Por Alberto Vieira da Silva

O portal Administradores publicou no passado dia 6 um artigo de Rafael Sampaio intitulado Quatro em cada cinco brasileiros situados na classe C não falam inglês, baseado num estudo realizado recentemente pelo Ibope. O artigo informa, logo do início, que quase 40% das pessoas nessa faixa de renda querem entrar na faculdade. O autor não refere se o estudo do Ibope se deteve também nos demais segmentos de renda; confesso que também não conferi – vou ficar devendo essa informação ao leitor.

Se esse é o panorama da classe C, eu arriscaria afirmar, desde logo, que o panorama das classes B e A no Brasil, não é muito melhor do que a C no que respeita à proficiência nessa, ou em outras línguas. Seja como for, é a chamada classe média – vamos dizer, compreendendo grosso modo as rendas de classe B e C – que constitui a matriz dinâmica de onde borbulham os pequenos e médios empreendimentos econômicos, as artes, as filosofias, a mobilidade econômica, social, profissional e intelectual e, portanto, as mudanças econômicas e sociais, na permanente e complexa alquimia do vir-a-ser de um país como o Brasil, que está cada vez mais estudando, negociando e expandindo-se por fronteiras ainda há pouco tempo inimaginadas.

De fato, não são os chamados “ricos” – a classe A e o estrato superior da classe B -, que induzem a mudança, visto que tendem a ser sempre mais conservadores do que os outros; e, por conseqüência, a manter o status quo: é a chamada de “classe média” que muda ou não muda um país. A classe média, através de um duplo fator que lhe é típico – escala e diversidade –, aliado à ânsia de mobilidade social, gera e nutre a vasta panóplia dos médios e pequenos empresários, dos gestores e outras hierarquias das organizações, dos professores, pesquisadores, jornalistas, formadores de opinião e outros trabalhadores do conhecimento.

Outro fator importante da classe média é sua permanente insatisfação econômica e social: nem todos querem ser ricos ou milionários, mas certamente, todos querem usufruir de mais conforto e recursos materiais, e aspiram frequentemente a outros horizontes culturais. E essa classe média, ansiando por mobilidade, constitui o grande caldeirão burbulhante que anima a vida nacional e as principais mudanças que nele são operadas.

Porém, pergunta-se observando o panorama global: – Como realizar essa ânsia de mobilidade, sem atravessar fronteiras culturais e dominar a língua franca mundial para comunicar livremente com clientes, pares, parceiros ou empregadores?

Algo que aconselho sempre a meus alunos e aos jovens com quem converso a respeito de empregabilidade e tendências mundiais nas carreiras e profissões, é que aprendam tão cedo quanto possível, senão diversas línguas estrangeiras, pelo menos a língua inglesa; e mais outra, para compor um trio com a língua-mãe. E não sendo tão jovens, o domínio da língua internacional continua sendo ainda útil, ou até necessário. Atualmente, tanto na Europa como no Japão, nos EUA ou no Canadá, a maior parte dos caçadores de cabeças executivas e as melhores oportunidades de emprego exigem a fluência escrita e falada de pelo menos duas línguas além do idioma materno; entre as quais, fatalmente, o inglês. Na China, a aprendizagem desse idioma já é obrigatória desde um nível escolar básico. E assim acontece há muito na Alemanha, Suécia, Holanda, Portugal e muitos outros países Europeus.

Quer se goste, quer não o inglês tornou-se a língua franca universal, não só no mundo dos negócios, mas também no âmbito da produção científica e da tecnologia. Através do conhecimento da língua inglesa, o planeta inteiro abre-se em informação sobre quase tudo o que existe. De certa forma, o English, a língua de Shakespeare, tornou-se Globish… Ou globalês, se quisermos adaptar o termo ao nosso idioma.

Contudo, a constatação da onipresença da língua inglesa não implica, obviamente, que se abdique de sua própria língua, cultura ou identidade, ou até que não se faça o possível por aprofundá-la, valorizá-la e expandi-la, o que é absolutamente lícito e mesmo desejável num contexto global. A identidade de cada um é o seu chão, é a ligação com as origens, e a língua é sempre a Grande Mãe de uma cultura. Por exemplo, Fernando Pessoa escreveu que “A minha Pátria é a língua portuguesa”. E é aí que reside também um importante fator de ascensão profissional e cultural, a par do aprendizado de línguas estrangeiras: o domínio de sua própria língua.

Com efeito, pode observar-se que, ao longo do tecido geográfico e social brasileiro, uma porcentagem importante de decisores, gestores, políticos e muitas outras pessoas de destaque não se exprime por via oral ou escrita com correção minimamente aceitável: na sintaxe, no vocabulário, na ortografia, nem sequer com um recurso suficientemente variado de vocabulário. Eu também não, provavelmente, mas faço por aprofundar sempre nosso idioma. Até traduções de filmes (legendados e doblados) e de livros de Administração e outros temas técnicos são, por vezes, coisa triste de presenciar. Pior ainda: professores cometem erros ortográficos, de sintaxe e de concordância, e escrevem com pobreza e imperfeições, as mesmas que se encontram também em TCCs, em monografias de MBA, em dissertações de mestrado e, até, em teses de doutorado…

Por outro lado, a globalização cultural, que permite aos cidadãos do planeta – infelizmente, não todos, o que não pode ser esquecido nem abandonado, como projeto permanente de dignificação do ser humano – se é feita sobretudo através desse “médium” linguístico, oferece também a oportunidade da emergência de outras línguas e dos diferentes aspectos étnicos e culturais que lhe são relacionados: um exemplo é a própria comunidade indígena no Brasil, que vem se organizando nos últimos anos, e que hoje tem blogs e websites onde qualquer um pode conhecer melhor as características de cada nação indígena, até de cada tribo, os mitos, ritos, costumes, línguas e tradições; algo que, anteriormente, estava apenas na mão de poucos especialistas em universidades, ou de simpatizantes da causa indígena.

Em suma, é perfeitamente natural que as pessoas não queiram aprofundar a língua inglesa e conhecer a fundo as culturas britânica, norte-americana, e outras – ninguém é obrigado a isso; mas não utilizá-la como instrumento é, com certeza, um freio ao desenvolvimento profissional, comercial, pessoal e científico no mundo de hoje. É algo como saber mexer com computadores: eu não sou obrigado a saber tudo sobre computação, sistemas de informação e linguagens de programação, nem mesmo sobre o Word, o Excel e o PowerPoint, ou o OpenOffice, que seja; mas, nos nossos dias, ou aprendo a utilizá-los como instrumento de trabalho em um nível aceitável e profissional, ou ficarei eternamente fechado dentro de meu bairro, achando que o mundo lá fora é sempre igual a ele.

(Parte deste post foi adaptado de Referências: idéias, gurus e teorias publicado em 31-07-2009 no meu blog anterior O estado da Ars).

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