Ser ou não ser: apenas as questões ensinam

Por Alberto Vieira da Silva

Há pouco tempo atrás, conheci um jovem que se identificou como administrador. – Administrador onde, meu amigo? – perguntei curioso. – Em lado algum – respondeu o meu interlocutor. ­– Como assim? – Indaguei surpreendido. Atualmente estou procurando o primeiro emprego, sou formado em Administração.

Na verdade, muita gente confunde habilitação acadêmica com profissão e carreira e, mais ainda, grau acadêmico com capacidade para ter um bom desempenho num ambiente profissional qualquer. Ao longo da vida, conheci graduados, mestres e até doutores com fraquíssima capacidade para desempenhar seus cargos; e conheci pessoas sem curso superior com uma inteligência, capacidade e desempenho profissional extraordinários, que fariam inveja a muitos portadores de grau universitário, se alguns entre eles se questionassem sobre a qualidade de seu próprio desempenho.

Qual é a razão dessa defasagem? Um curso superior é algo que um individuo adiciona à sua experiência e conhecimento, mas nem sempre incorpora em seu interior, em sua inteligência e capacidade criadora; por outras palavras, e como falava um velho professor que tive na juventude, “o conhecimento não entra por osmose”. Portanto, conhecimento é uma coisa, inteligência e capacidade criadora é outra bem diferente. O que diferencia um gênio com curso superior de uma pessoa comum com o mesmo curso superior? Formalmente, nada; na prática, tudo.

Assim, uma graduação em Filosofia não faz um filósofo, um curso superior de Artes não cria um artista, nem um bom jornalista vem necessariamente de um curso de Jornalismo; assim como um bom gestor ou administrador não é excelente, bom, médio ou fraco só porque cursou a melhor ou pior escola no ranking acadêmico do país ou do exterior. O que falta, então, a alguém para ser excelente em sua profissão? O curso superior é uma base e uma ajuda tremendamente importante, mas só por si é apenas uma casca, se não desencadear uma transformação dentro do indivíduo. Numa grande parte dos casos isso não acontece: ao longo das últimas décadas foi gerada uma cultura consumista de diplomas, e os jovens acham que curso superior serve apenas para ter o diploma para poder ganhar dinheiro e ponto final.

Por outro lado, as maiores invenções e descobertas da História nem sempre foram feitas – ou poucas vezes o foram – por bacharéis ou graduados em universidades. As maiores obras de arte ou literárias não surgiram de críticos de literatura, de marchands ou de professores de Belas-Artes; e dos empresários de maior sucesso, aqueles verdadeiramente empreendedores, poucos tinham ou têm cursos superiores quando criaram seus negócios: a titulação veio depois.

Nas universidades, por exemplo, existe um fenômeno cultural muito curioso: acredita-se que basta ser professor para ser um bom gestor universitário. Além de algo chocante, é uma crença ilusória, vamos dizer, um mito criado pela comunidade acadêmica, não se sabe com que direito ou clareza, porque está desajustada dos princípios da ética profissional. Por exemplo, eu não aceitaria dar aulas de Medicina ou, muito menos, operar um paciente numa sala de cirurgia. Não aceitaria, porque reconheço que não tenho essa competência; logo, tenho que ser suficientemente honesto para afirmar que não posso fazê-lo, a não ser depois de intenso estudo e treinamento. Não se fabrica um gestor de um dia para o outro, só porque foi nomeado e porque possui um grau acadêmico em qualquer área do conhecimento.  Sendo assim, como poderá um graduado em Medicina, em Jornalismo, em Química ou em Serviço Social tornar-se um bom gestor só pela nomeação para um cargo de gestão, seja numa universidade ou em qualquer outro lugar? O princípio é o mesmo. Não digo que, em um caso ou outro, alguém de qualquer outra área não possa ser um bom e até excelente administrador, ou até um empresário de sucesso; mas não é comum. Mas será que uma instituição de ensino superior precisa de bons gestores? – Essa é uma outra questão que não é colocada com a frequência e nas condições que seria necessário.

Colocando de parte o curso e a universidade de onde veio o diploma – embora seja sempre de contar com o mercado dos diplomas falsos – a diferença entre um profissional e, particularmente, um administrador excelente e um administrador medíocre reside nele mesmo em primeiro lugar, em sua capacidade para exceder seus próprios limites e desdobrar-se em inventiva, criatividade, uma arte permanente de analisar permanente e sistemicamente os objetivos, os meios, o entorno e a decisão; em segundo lugar, a diferença reside na habilidade em promover o encontro entre a teoria e a prática, para o que a experiência ajuda, bem entendido. Em terceiro lugar, essa diferença advém da experiência de administração e da diversidade de situações em que essa prática ocorreu. O jovem de que falei no início não poderia nunca ser “Administrador”, porque nunca administrou nada. Provavelmente, ninguém na universidade dele lhe explicou isso. Provavelmente, nem aprendeu como administrar, mas apenas disciplinas que orbitam em torno do tema “Administração” – um problema do teoricismo reinante em grande parte dos cursos de Administração ofertados no mercado.

Drucker tinha uma frase que fazia ecoar em quase todos os seus livros, entrevistas, artigos ou palestra: “Management is practice”. Ou seja, a gestão é essencialmente uma prática, como a medicina, a enfermagem ou a advocacia, e apenas surge como tal em situações reais: ela não existe como teoria, nem mesmo como um agregado de teorias sobre as pessoas, dinheiro, tecnologias e organizações, embora vários conhecimentos teóricos sejam úteis para essa prática. E como prática, demanda experiência; e, como experiência, ela é teorizável nos resultados acumulados da experiência, mas nunca fica limitada à teoria já existente ou ao teorizável a partir daquela. Justamente, porque a realidade de uma organização, num dado momento e num dado lugar, é única, é impermanente e é mutável, tanto no seu exterior como no interior e, também, nas relações entre uma e outra, começando logo pelas relações entre pessoas.

Assim, ser ou não ser gestor, sobretudo um bom gestor – sobretudo se for um decisor ou assessor de topo – parte da pessoa em si mesma, passa pelas pessoas com que ela se relaciona e pela arte desse relacionamento; passa ainda pelo conhecimento sólido, claro e preciso das principais técnicas e teorias sobre o assunto, mas some novamente na pessoa do gestor, através de sua capacidade de questionar-se permanentemente sobre o melhoramento da organização e de encontrar soluções e inovações, e da competência para colocar todo esse complexo em condições de dar resultados.

Sem dúvida, apenas as questões ensinam, porque soluções, respostas ou resultados que fazem parte do presente de hoje, são a experiência útil para a amanhã. Mas amanhã já foram… porque amanhã as condições e os desafios que vão gerar soluções, respostas ou resultados já serão diferentes. Portanto, na prática da Gestão, além da capacidade interior, do conhecimento, da experiência e da prática, apenas as questões ensinam.

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